"Queremos continuar na ribalta"

Álvaro Mendonça, treinador do Vilanovense em 2002/2003
 

por: Mateus Rocha (Coordenador desportivo do Diário-Insular)
 
SCV: O plantel do Vilanovense para 2002/2003 sofreu diversas modificações em relação ao anterior. No saldo entre as saídas e as entradas, a equipa ficou a ganhar ou a perder?
ÁLVARO MENDONÇA (AM):
Antes de mais, gostava de deixar bem claro que a grande aposta da direcção do Vilanovense para a próxima temporada passa pela construção da nova sede social e pela colocação do piso sintético no campo de jogos da freguesia. São dois melhoramentos fundamentais e que vão permitir um futuro mais risonho a esta colectividade.
Todavia, e entrando na vertente desportiva, mais importante do que saber se a equipa ficou a ganhar ou a perder com as modificações operadas no plantel, é ter a certeza de que o grupo de trabalho que me foi colocado à disposição oferece totais garantias de êxito. Ou seja, este naipe de atletas têm todas as condições para discutir os títulos em disputa. Claro que para tal é preciso trabalhar muito ao longo da época e respeitar sempre os adversários. Só assim é que poderemos chegar na frente.
É evidente que perdemos peças influentes na manobra do colectivo, mas, dentro das possibilidades do clube, procurámo-nos reforçar da melhor maneira possível. Sabe, a equipa que vence o campeonato de ilha é sempre o principal alvo daquelas que militam na Série – Açores e este ano não foi excepção. Basta dizer que perdemos para esses clubes atletas como o Márcio, Ralha e Vítor.

SCV: Levando em linha de conta o que se passou na última época, o regresso ao futebol nacional, via Série – Açores, é a meta com que todos ambicionam dentro do Sport Clube Vilanovense?
AM:
É lógico de que todos gostávamos de regressar o mais depressa possível à Série – Açores. O ano passado a sorte não nos acompanhou em determinados momentos, daí não termos conseguido conquistar o título de campeão da AFAH. Aliás, podíamos perfeitamente ter feito história no futebol açoriano, uma vez que somente nos escapou o título associativo, por mera infelicidade, e a Taça Açores, fruto de uma arbitragem que nos foi altamente prejudicial.
Estamos conscientes de que esta temporada vamos voltar a sentir muitas dificuldades, mas dentro deste grupo de trabalho mora a esperança de atingirmos esse desiderato. Porém, é preciso pensar jogo a jogo e ter a noção de que há outros concorrentes com objectivos semelhantes. Julgo que nesta fase o mais importante é trabalhar com empenho e dedicação. O resto, certamente, que virá por acréscimo.

SCV: O clube do qual é uma das grandes figuras continua a ter como principal lema a estabilidade desportiva e financeira, para que não lhe aconteça o mesmo do que a outros emblemas conceituados da nossa praça?
AM:
É verdade, embora na vertente financeira o clube raramente tenha vivido momentos complicados. Quem passa por esta casa tem sempre a preocupação de sair sem deixar dividas, princípio que se manteve aquando das nossas passagens pelos campeonatos nacionais. Acima de todos nós está a instituição Sport Cube Vilanovense. Por tudo aquilo que tem feito em prol do desporto local e mesmo açoriano, o Vilanovense merece ser respeitado por toda a gente, a começar pelas pessoas da casa, o que, graças a Deus, tem acontecido.
É neste contexto que criamos as nossas expectativas e ambições. Sabemos aquilo que valemos e para onde queremos ir, mas com os pés bem assentes no chão. O Vilanovense tem condições para continuar a crescer sob todos os níveis, mas é fundamental que esse crescimento seja sustentado e equilibrado. A nossa ambição não pode ser desmedida, antes pelo contrário. Portanto, a estabilidade financeira jamais pode ser colocada em causa. Aliás, estou convicto de que uma boa estabilidade financeira originará, fatalmente, uma boa estabilidade desportiva. O nosso lema com pouco fazer muito tem dado resultados positivos, o que registamos com inteiro agrado.

 

“Quadro complicado”



SCV: A outro nível, continua sem se saber ao certo quantas equipas vão disputar as provas sob a égide da AFAH. Para já, parecem apenas seguras Vilanovense, Barreiro e “Os Leões”.
AM:
Mediante este quadro é muito complicado avançar com qualquer tipo de previsão. Por aquilo que se ouve, as equipas do Porto Judeu também se estão a reforçar muito bem, o que me leva a crer que podemos ter uma época muito competitiva. Porém, somente três equipas é muito pouco. Entendo que quatro era o número minimamente aceitável, até para que ninguém tivesse que descansar jornada a jornada. A ilha Terceira sempre teve quadros competitivos muito fortes e este cenário que se afigura no horizonte não dignifica em nada o nosso futebol. Creio que chegou o momento de se fazer uma reflexão muito profunda sobre o estado actual da modalidade na ilha Terceira, pois podemos estar a entrar num beco sem saída. No entanto, para mim os problemas passam, sobretudo, pela falta de dirigentes.

SCV: Também é daqueles que defendem a tese de que, a manter-se o actual estado de coisas, o futebol regional terceirense corre o sério risco de desaparecer a curto/médio prazo?
AM:
Infelizmente, todos os dados indiciam esse desfecho. Existe uma crise generalizada, que tem como factor mais visível, volto a dizer, a falta de dirigentes. Hoje em dia ninguém se quer aborrecer com os clubes, pois as dificuldades são mais do que muitas. As receitas não abundam e as despesas são elevadas. Se calhar, começa a faltar o amor à camisola de outros tempos. Depois, a grande verdade é que não há apoios para o futebol regional, o que complica ainda mais as coisas. Era preciso que quem de direito olhasse pelo futebol associativo e levasse em consideração a importância do mesmo, o que presentemente não acontece.

SCV: Por este andar, qualquer dia temos sintéticos espalhados por toda a ilha, mas sem ninguém para os utilizar. Que comentário lhe merece esta situação, no mínimo, insólita?
AM:
Julgo que clubes como o Juventude Lajense e o Marítimos de São Mateus, com todo o respeito que me merecem, deviam colocar a mão na consciência e perceber o grande esforço das autarquias para dotar os campos da ilha com pisos sintéticos. Não entrar nas competições não é, com certeza, a melhor forma de agradecer todo esse esforço das Câmara Municipais, até porque os dois clubes em questão foram dos primeiros a merecer um piso sintético, em prejuízo de outros como, por exemplo, o Vilanovense e “Os Leões”.
Por outro lado, a não entrada nas competições, acaba por prejudicar, sobretudo, os imensos jovens dessas duas freguesias. O nosso futebol precisa de equipas como o Juventude Lajense e o Marítimos de São Mateus. São duas referências importantes do panorama desportivo local que não podem, pura e simplesmente, desaparecer.

* Publicado no Diário-Insular, em 12 Agosto de 2002