"O novo começo"

Moisés. O pequeno/grande… treinador do Vilanovense em 2004/2005

por:Luís Almeida, (Colaborador desportivo do Diário-Insular)

 

Depois de abandonar os relvados, Moisés dedicou-se à carreira de treinador. O Vilanovense é, para o saudoso pequeno/grande jogador, um novo começo.
Moisés iniciou a sua carreira de futebolista em S. Miguel, sua terra natal, ao serviço do Benfica Águia, ainda nas camadas jovens. Os dotes evidenciados no futebol regional micaelense valeram-lhe o ingresso no Santa Clara. Foram 2 anos com a camisola dos encarnados de Ponta Delgada, sendo que na última temporada conquistou a subida à 2ª Divisão Nacional. Este foi o trampolim para que Moisés viajasse até à Terceira, permanecendo no Sport Clube Praiense durante uma época numa altura em que a turma da Praia militava na antiga Série E da 3ª Divisão Nacional.
Foi um ano de transição até assinar pelo Sport Clube Lusitânia, instituição que representou durante cerca de uma dezena de anos. Foi com a camisola verde-branca que Moisés mais se notabilizou, passeando toda a sua classe pelos campos de futebol deste país. Colocou um fim na sua brilhante carreira na época passada, depois de representar o Praiense nas duas últimas épocas da Série Açores. Certamente que muitos recordam com saudade aquele pequeno/grande jogador que tinha tudo para ter vingado ao mais alto nível no futebol português. Qualidades não lhe faltavam.
Nascido em S. Miguel, Moisés passou a maior parte da sua carreira na Terceira, ilha onde reside e exerce a sua actividade profissional. Neste momento, o futuro passa por estar sentado no banco de suplentes vestindo o equipamento de treinador do Vilanovense.


 

SCV: Como está a encarar esta nova fase enquanto treinador de futebol, isto depois de ter colocado um ponto final na carreira de jogador?
MOISÉS (M): Sempre digo que tudo na vida tem um princípio. A minha carreira de jogador teve o seu princípio mas, agora, chegou igualmente o seu fim. Neste momento, é o começo como treinador principal de uma equipa. No entanto, não se pense que é fácil recomeçar depois de 15/20 anos de futebolista. Trata-se de uma experiência nova e, com a ajuda de todos os jogadores e direcção do Sport Clube Vilanovense, vou tentar fazer o meu melhor. É uma nova etapa. Um novo começo. O princípio de uma nova fase. Vou tentar transmitir aos meus jogadores tudo aquilo que aprendi como atleta. Trata-se de um plantel muito jovem, com uma média de idades de 23/24 anos.

SCV: O que é que os adeptos do Vilanovense podem esperar da equipa nas provas organizadas pela Associação de Futebol de Angra do Heroísmo?
M: Nas primeiras conversas que tive com os directores do Sport Clube Vilanovense, pensei que o clube poderia construir uma equipa bastante forte. No entanto, como os recursos económicos e financeiros não são abundantes, apenas conseguimos formar a equipa possível, até porque não pagamos nada a ninguém, ao contrário de outras formações que pagam prémios de jogos. O Vilanovense tem um grupo bastante jovem e vamos, todos em conjunto, tentar fazer o melhor possível. E o melhor possível passa por tentar garantir um bom resultado jogo a jogo. Foi apenas isto que me foi pedido pela direcção do clube. Penso que o plantel necessitaria de mais 2/3 elementos com experiência para que fosse possível lutar pelos lugares mais cimeiros.

SCV: Isto quer dizer que o actual plantel que tem ao seu dispor não lhe dá as garantias necessárias para que o Vilanovense possa discutir, de igual para igual, com os principais favoritos?
M: Como já disse, trata-se de um plantel muito jovem e, quando assim é, falta sempre a experiência que é fundamental para se alcançar aqueles objectivos que coloquei à direcção. Como não foi possível construir aquela equipa que eu próprio estaria à espera, temos de arregaçar mangas e tentar lutar para fazer o melhor possível. Quando, financeiramente, não é possível atingir-se certos patamares, só nos resta compreender e encarar esta realidade com o máximo de empenho na tentativa de se fazer o melhor possível com os jogadores que temos. O Vilanovense tem um grupo de jovens que merece o meu respeito - até porque já fui atleta e sei como é difícil começar - e penso que todos eles irão dar o seu melhor para se dignificarem a si próprios e a instituição que representam. Existem alguns jovens com valor e que podem chegar bem longe, desde que, como é lógico, trabalhem para isso.

Nada de promessas

SCV: Depreende-se das suas palavras que será muito complicado, a curto/médio prazo, o Vilanovense atingir novamente a Série Açores da 3ª Divisão Nacional?
M: É uma pergunta que tem de fazer à direcção do Vilanovense. Poderia ter idealizado um plano com objectivos mais altos, até porque as condições de trabalho em termos de instalações desportivas são excelentes. Tudo depende daquilo que a direcção do clube quererá fazer, quem sabe, para o ano que vem. O meu contrato tem a duração de apenas um ano e não posso estar a prometer nada, até porque o futuro a Deus pertence.

SCV: O Vilanovense poderá contratar mais algum atleta?

M: Existem sempre vagas por preencher, até porque, como já referi, se tivesse mais 3/4 jogadores com maior experiência e com valor, de certeza que não teria problemas em afirmar que apostava para ser campeão. Mas quando faltam certos atletas para determinadas posições a tarefa torna-se muito mais difícil. Resta-nos fazer o nosso melhor.

SCV: Por falar em fracos recursos financeiros, a verdade é que, actualmente, conseguir manter uma equipa sénior em actividade no futebol terceirense acaba por ser quase um milagre. Basta olharmos para o caso do Lajense, que teve dois anos de interregno, e para o possível abandono do Marítimos de São Mateus. Garantir a sobrevivência do plantel sénior acaba por ser um grande objectivo alcançado, isto levando em linha de conta que todos os anos uma equipa fica pelo caminho?

M: É uma situação verdadeiramente complicada. Dá-me um certo gozo treinar aqueles jovens e constatar que todos comparecem nos treinos com uma enorme vontade de jogar futebol. No entanto, torna-se difícil lidar com a falta de exigência no aspecto financeiro. Ou seja, não se pode exigir demasiado a quem nada recebe. Tendo em conta esta situação, penso que todos estão a fazer o melhor possível.
Nunca pensei que o Lajense voltasse a formar uma equipa sénior para esta época. Aliás, já tínhamos alguns jogadores das Lajes referenciados para integrar o plantel do Vilanovense. É, na realidade, de lamentar que o Marítimos de São Mateus possa não participar nas provas da Associação de Futebol de Angra. Resta-nos louvar o regresso do Lajense.

Lusitânia marcou

SCV: O Moisés foi, sem sombra de dúvida, um dos maiores jogadores que o futebol açoriano produziu. Não é de ânimo leve que se abandona os relvados?
M: Como já referi, há sempre um princípio e um fim. Penso que chegou a altura de dizer: acabou. Estou convicto de que foi na altura certa, até porque, com 36 anos, a idade já pesa e algumas lesões não nos permitem render o suficiente. Mas é claro que custa bastante abandonar a carreira de jogador. Mas penso que tive sorte de receber o convite para ser treinador do Vilanovense, visto que fico sempre ligado ao futebol.

SCV: Quais foram os momentos mais altos da sua carreira e qual o clube que mais o marcou?

M: Nunca poderei esquecer o Benfica Águia, que foi o clube onde comecei para o futebol. No entanto, o clube que mais me marcou foi, sem dúvida, o Sport Clube Lusitânia. Foram cerca de uma dezena de anos e só tenho de agradecer a todas as direcções que por lá passaram. Mesmo assim, também recordo com saudade as épocas em que passei no Santa Clara e no Praiense, clubes pelos quais dei tudo o que sabia. Momentos altos foram muitos, principalmente com as várias subidas de divisão que vivi, embora os pontos baixos também tenham existido.

SCV: O Moisés foi um atleta de invejável técnica, passeando classe pelos campos por onde passou. O que faltou para que pudesse ter dado o salto para patamares mais elevados do futebol português?
M: Há 20 anos atrás era muito complicado, até porque o meio era bastante mais fechado. Houve treinadores que tentaram levar-me para outros campeonatos, mas tive sempre receio de ir para fora. No entanto, penso que poderia ter vingado no futebol. Poderia ter chegado muito mais alto, se a oportunidade tivesse surgido. Hoje em dia é mais fácil e existem muitos jovens que poderiam subir no futebol. No entanto, é sempre complicado deixar o emprego e arriscar.
 


 

* Publicado no Diário-Insular, em 13 Setembro  de 2004