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Depois
de abandonar os relvados, Moisés dedicou-se à carreira de
treinador. O Vilanovense é, para o
saudoso
pequeno/grande jogador, um novo começo.
Moisés iniciou a sua
carreira de futebolista em S. Miguel, sua terra natal, ao
serviço do Benfica Águia, ainda nas camadas jovens. Os dotes
evidenciados no futebol regional micaelense valeram-lhe o
ingresso no Santa Clara. Foram 2 anos com a camisola dos
encarnados de Ponta Delgada, sendo que na última temporada
conquistou a subida à 2ª Divisão Nacional. Este foi o trampolim
para que Moisés viajasse até à Terceira, permanecendo no Sport
Clube Praiense durante uma época numa altura em que a turma da
Praia militava na antiga Série E da 3ª Divisão Nacional.
Foi um ano de transição até
assinar pelo Sport Clube Lusitânia, instituição que representou
durante cerca de uma dezena de anos. Foi com a camisola
verde-branca que Moisés mais se notabilizou, passeando toda a
sua classe pelos campos de futebol deste país. Colocou um fim na
sua brilhante carreira na época passada, depois de representar o
Praiense nas duas últimas épocas da Série Açores. Certamente que
muitos recordam com saudade aquele pequeno/grande jogador que
tinha tudo para ter vingado ao mais alto nível no futebol
português. Qualidades não lhe faltavam.
Nascido em S. Miguel, Moisés passou a maior parte da sua
carreira na Terceira, ilha onde reside e exerce a sua actividade
profissional. Neste momento, o futuro passa por estar sentado no
banco de suplentes vestindo o equipamento de treinador do
Vilanovense.
SCV: Como está a encarar esta
nova fase enquanto treinador de futebol, isto depois de ter
colocado um ponto final na carreira de jogador?
MOISÉS (M): Sempre digo que tudo na vida tem um princípio. A
minha carreira de jogador teve o seu princípio mas, agora,
chegou igualmente o seu fim. Neste momento, é o começo como
treinador principal de uma equipa. No entanto, não se pense
que é fácil recomeçar depois de 15/20 anos de futebolista.
Trata-se de uma experiência nova e, com a ajuda de todos os
jogadores e direcção do Sport Clube Vilanovense, vou tentar
fazer o meu melhor. É uma nova etapa. Um novo começo. O
princípio de uma nova fase. Vou tentar transmitir aos meus
jogadores tudo aquilo que aprendi como atleta. Trata-se de
um plantel muito jovem, com uma média de idades de 23/24
anos.
SCV: O que é que os adeptos do Vilanovense podem esperar
da equipa nas provas organizadas pela Associação de Futebol
de Angra do Heroísmo?
M: Nas primeiras conversas que tive com os directores do
Sport Clube Vilanovense, pensei que o clube poderia
construir uma equipa bastante forte. No entanto, como os
recursos económicos e financeiros não são abundantes, apenas
conseguimos formar a equipa possível, até porque não pagamos
nada a ninguém, ao contrário de outras formações que pagam
prémios de jogos. O Vilanovense tem um grupo bastante jovem
e vamos, todos em conjunto, tentar fazer o melhor possível.
E o melhor possível passa por tentar garantir um bom
resultado jogo a jogo. Foi apenas isto que me foi pedido
pela direcção do clube. Penso que o plantel necessitaria de
mais 2/3 elementos com experiência para que fosse possível
lutar pelos lugares mais cimeiros.
SCV: Isto quer dizer que o actual plantel que tem ao seu
dispor não lhe dá as garantias necessárias para que o
Vilanovense possa discutir, de igual para igual, com os
principais favoritos?
M: Como já disse, trata-se de um plantel muito jovem e,
quando assim é, falta sempre a experiência que é fundamental
para se alcançar aqueles objectivos que coloquei à direcção.
Como não foi possível construir aquela equipa que eu próprio
estaria à espera, temos de arregaçar mangas e tentar lutar
para fazer o melhor possível. Quando, financeiramente, não é
possível atingir-se certos patamares, só nos resta
compreender e encarar esta realidade com o máximo de empenho
na tentativa de se fazer o melhor possível com os jogadores
que temos. O Vilanovense tem um grupo de jovens que merece o
meu respeito - até porque já fui atleta e sei como é difícil
começar - e penso que todos eles irão dar o seu melhor para
se dignificarem a si próprios e a instituição que
representam. Existem alguns jovens com valor e que podem
chegar bem longe, desde que, como é lógico, trabalhem para
isso.
Nada de promessas
SCV: Depreende-se das suas palavras que será muito
complicado, a curto/médio prazo, o Vilanovense atingir
novamente a Série Açores da 3ª Divisão Nacional?
M: É uma pergunta que tem de fazer à direcção do Vilanovense.
Poderia ter idealizado um plano com objectivos mais altos,
até porque as condições de trabalho em termos de instalações
desportivas são excelentes. Tudo depende daquilo que a
direcção do clube quererá fazer, quem sabe, para o ano que
vem. O meu contrato tem a duração de apenas um ano e não
posso estar a prometer nada, até porque o futuro a Deus
pertence.
SCV: O Vilanovense poderá contratar mais algum atleta?
M: Existem sempre vagas por preencher, até porque, como já
referi, se tivesse mais 3/4 jogadores com maior experiência
e com valor, de certeza que não teria problemas em afirmar
que apostava para ser campeão. Mas quando faltam certos
atletas para determinadas posições a tarefa torna-se muito
mais difícil. Resta-nos fazer o nosso melhor.
SCV: Por falar em fracos recursos financeiros, a verdade é
que, actualmente, conseguir manter uma equipa sénior em
actividade no futebol terceirense acaba por ser quase um
milagre. Basta olharmos para o caso do Lajense, que teve
dois anos de interregno, e para o possível abandono do
Marítimos de São Mateus. Garantir a sobrevivência do plantel
sénior acaba por ser um grande objectivo alcançado, isto
levando em linha de conta que todos os anos uma equipa fica
pelo caminho?
M: É uma situação verdadeiramente complicada. Dá-me um certo
gozo treinar aqueles jovens e constatar que todos comparecem
nos treinos com uma enorme vontade de jogar futebol. No
entanto, torna-se difícil lidar com a falta de exigência no
aspecto financeiro. Ou seja, não se pode exigir demasiado a
quem nada recebe. Tendo em conta esta situação, penso que
todos estão a fazer o melhor possível.
Nunca pensei que o Lajense voltasse a formar uma equipa
sénior para esta época. Aliás, já tínhamos alguns jogadores
das Lajes referenciados para integrar o plantel do
Vilanovense. É, na realidade, de lamentar que o Marítimos de
São Mateus possa não participar nas provas da Associação de
Futebol de Angra. Resta-nos louvar o regresso do Lajense.
Lusitânia marcou
SCV: O Moisés foi, sem sombra de dúvida, um dos maiores
jogadores que o futebol açoriano produziu. Não é de ânimo
leve que se abandona os relvados?
M: Como já referi, há sempre um princípio e um fim. Penso
que chegou a altura de dizer: acabou. Estou convicto de que
foi na altura certa, até porque, com 36 anos, a idade já
pesa e algumas lesões não nos permitem render o suficiente.
Mas é claro que custa bastante abandonar a carreira de
jogador. Mas penso que tive sorte de receber o convite para
ser treinador do Vilanovense, visto que fico sempre ligado
ao futebol.
SCV: Quais foram os momentos mais altos da sua carreira e
qual o clube que mais o marcou?
M: Nunca poderei esquecer o Benfica Águia, que foi o clube
onde comecei para o futebol. No entanto, o clube que mais me
marcou foi, sem dúvida, o Sport Clube Lusitânia. Foram cerca
de uma dezena de anos e só tenho de agradecer a todas as
direcções que por lá passaram. Mesmo assim, também recordo
com saudade as épocas em que passei no Santa Clara e no
Praiense, clubes pelos quais dei tudo o que sabia. Momentos
altos foram muitos, principalmente com as várias subidas de
divisão que vivi, embora os pontos baixos também tenham
existido.
SCV: O Moisés foi um atleta de invejável técnica,
passeando classe pelos campos por onde passou. O que faltou
para que pudesse ter dado o salto para patamares mais
elevados do futebol português?
M: Há 20 anos atrás era muito complicado, até porque o meio
era bastante mais fechado. Houve treinadores que tentaram
levar-me para outros campeonatos, mas tive sempre receio de
ir para fora. No entanto, penso que poderia ter vingado no
futebol. Poderia ter chegado muito mais alto, se a
oportunidade tivesse surgido. Hoje em dia é mais fácil e
existem muitos jovens que poderiam subir no futebol. No
entanto, é sempre complicado deixar o emprego e arriscar.
* Publicado
no Diário-Insular, em 13 Setembro de 2004
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