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"Apostar
nas condições de trabalho e organização" |
Joaquim Jesus (Quim), técnico do Vilanovense em 2003/2004
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por:Daniel
Costa,
(Colaborador desportivo do
Diário-Insular)
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SCV
– Como é que surgiu a possibilidade de treinar o
Vilanovense?
Quim – O convite
surgiu por intermédio de um colega meu de trabalho, que é
o chefe do departamento de futebol do clube. A época
transacta parece que correu mal. Houve pouca assiduidade
aos treinos, a par de diversos problemas de vária ordem,
que não interessa agora mencionar.
Este colega falou comigo para saber da disponibilidade em
vir a treinar o Vilanovense. Analisei tudo e como estava
parado já há um ano e o bichinho do futebol está sempre
presente, aceitei o convite.
Sou um indivíduo que gosto muito de trabalhar com
seriedade. Reuni com a direcção do clube, a fim de aferir
das possibilidade de fazer um bom trabalho. A nível de
condições de trabalho elas existem. Quanto a jogadores, a
situação é pertinente, porque cada vez há menos valores no
nosso futebol. Trabalha-se mal na formação, embora esta
situação não se fique a dever aos treinadores. Penso que
os clubes apostam pouco. Fala-se e escreve-se muito sobre
este tema, mas de concreto vê-se pouco.
Este ano vou ter muitos jogadores jovens, que neste
momento estavam sem clube. A colectividade não paga, só
prémios, estando, no entanto, por resolver alguns
detalhes. Porém, vamos, na base dessa juventude, criar uma
boa base de trabalho, com seriedade, para tentar trazer
algumas alegrias à massa associativa do Vilanovense. O
clube tem umas infra-estruturas óptimas, a nível de sede e
de campo, mas o passivo inibe-o de investir no futebol.
Como tal, a solução é apostar nas condições de trabalho e
na organização.
SCV – A nível do regional, a equipa tem excelentes
condições de trabalho. Portanto, a ideia é partir do ano
zero, tentando rentabilizar os meios, em termos de
constituição de equipa?
Quim – Penso que, em termos de condições de trabalho,
tirando “Os Leões” que não tem campo próprio, os clubes
aqui na Terceira, e em geral na Região, já desfrutam de
melhores condições.
É evidente que se coloca sempre a questão da vertente
humana. Os jogadores escasseiam, alguns têm maus hábitos
de trabalho e, como disse, vou de facto partir do zero,
tentando incutir bons hábitos de trabalho, esperando que o
grupo assim o entenda e esteja com alguma seriedade no
futebol, porque é um desporto sério. Quero que trabalhem
com alegria, até porque a minha forma de orientar o treino
é um pouco diferente em relação ao que tenho observado.
Aliás, sou da opinião que os treinadores devem também
pensar um pouco sobre esse assunto, porque hoje em dia os
jovens têm várias modalidades a aliciá-los. Modalidades
que são praticadas em pavilhões, ao abrigo das
intempéries, ao passo que o futebol é praticado ao ar
livre e é um desporto um tanto ou quanto desgastante. Por
isso é necessário que os técnicos tenham consciência e
façam um trabalho que motive o próprio grupo, não
efectuando treinos muito repetitivos, tornando-os muito
mais agradáveis, levando isto em questão, a par de ser
necessário apresentar bons jogos, com um futebol de
ataque, onde não impere o anti-jogo e o toque para trás.
SCV – Ou seja, uma aposta clara na melhoria a todos os
níveis?
Quim – Exacto. Neste contexto, as pessoas, que em casa
já têm um vasto leque de opções em termos de qualidade de
futebol elevadíssima, acabarão por aparecer nos recintos
desportivos. Pelo menos, esta é a minha convicção.
É bom que todos pensem nisso. É evidente que é só uma
equipa a ganhar, mas se todos acreditarmos que o futebol
deve ser alicerçado em estratégias ofensivas, os
espectadores surgiram, até porque os campos neste momento
são óptimos. Os atletas, baseado no trabalho que irá ser
feito, irão evoluir nesse aspecto.
Na minha maneira de estar no futebol, há que ter alguma
qualidade. Para tal, é necessário empenhamento e para se
apresentar um bom trabalho é preciso que os jogadores
também o queiram. Que tenham mais responsabilidade, porque
a falta um pouco ao nosso jogador. Ele tem sempre outras
coisas que o preocupa, esquecendo-se o espírito de
sacrifício que a modalidade obriga.
“Trabalho do árbitro é extremamente
difícil”
SCV – Tudo isso não virá da formação, onde, na maioria dos
casos, a procura insistente dos êxitos desportivos leva a
deixar para trás a sua principal vertente. Ou seja, a
formação técnica, táctica e cívica dos jovens que depois,
a nível sénior, por vezes revelando desconhecimento das
próprias leis do jogo e copiando o que da mal se observa,
simulam lesões, praticam o anti-jogo e protestam por tudo
e por nada. Alguns atingem mesmo a idade de sénior e não
são capazes de jogar com os dois pés, nem de cabeça...
Quim –
Inteiramente de acordo. É nisso que costumo falar com os
meus colegas, pois é necessário mudar, mas mudar algo de
profundo. As próprias direcção têm de entender que a
própria formação é fundamental. Não basta falar, são
necessárias medidas.
Gostaria de mencionar outro aspecto, porque é de louvar. O
Vilanovense tem pouca margem de manobra em termos
monetários, mas, mesmo assim, aconteceu uma coisa que é
inolvidável nesta terra. Já há muitos anos que não
aparecia duas listas a sufrágio num clube e isso é de
salutar. Quer dizer que as pessoas estão interessadas e
vivem a colectividade. Constatei, igualmente, que a
direcção em exercício é muito jovem, com uma média de
vinte e nove/trinta anos, o que é óptimo, e é extensa o
que também é importante, porque não irá desgastar muito as
pessoas, devido à rotatividade, inviabilizando o natural
cansaço de quem anda sempre com a equipa.
Quero também aproveitar a oportunidade para agradecer à
direcção do Vilanovense por se ter lembrado de mim. Espero
não defraudar ninguém e como em tudo na vida é preciso
sorte, nós também vamos necessitar um pouco dela. Todavia,
fica desde já a garantia de que pretendemos trabalhar com
seriedade para tentar dar o máximo de vitórias ao clube.
SCV – Tema sempre polémico, é o da arbitragem. No que
concerne a esta matéria, qual é o seu ponto de vista?
Quim - Em relação à arbitragem, basta dizer que nós
vemos jogos internacionais onde os árbitros erram. Julgo
que chegou a altura dos dirigentes, técnicos e atletas
terem outra postura no que diz respeito a esta questão. O
árbitro faz o seu trabalho, que é extremamente difícil, e
nós temos também de fazer o nosso. Por outro lado, é
importante tentar passar a mensagem ao grupo de que o juiz
é soberano, que também erra e que nós temos de acatar as
decisões, porque só assim é que o nosso futebol poderá
evoluir. Farto-me de ouvir os bodes expiatórios sobre a
arbitragem, porque é assim: quando as equipas ganham
ninguém fala nos árbitros, quando perdem é precisamente ao
contrário. Isso tem de ser ultrapassado, embora entenda
que existem situações que são difíceis de engolir, mas
esse passo tem de ser dado por alguém. Da minha parte, os
árbitros estão à-vontade. Inclusive, a minha maneira de
estar no futebol como jogador e como técnico é esta: cada
qual tem as suas funções.
Sou da opinião que a arbitragem não tem estado bem no seu
próprio seio e que a Associação deveria olhar por isso,
porque é uma parte fundamental no futebol.
SCV– Conhecedor da realidade dos clubes do regional,
até que ponto o Vilanovense poderá intrometer-se na luta
pelos lugares da frente?
Quim – Por aquilo que me tenho apercebido, já existem
neste momento duas equipas muito fortes, “Os Leões” e o
Marítimos. O Boavista, pelo facto da entrada em função da
nova direcção já um pouco tarde, tem encontrado algumas
dificuldades na formação do plantel. Quanto ao Vilanovense,
sinceramente não conheço a maioria dos jogadores. É
evidente que tenho de o fazer. Conheço mais ou menos os
atletas do “Leões” e do Marítimos. São plantéis formados
por atletas com alguma qualidade e experiência, mas no
futebol sabemos que isso, só por si, não é suficiente. São
importantes as etapas que se realizam dia a dia e mês a
mês. Todavia, estou em crer que o Vilanovense será uma
equipa que irá vender cara a derrota. Iremos jogar o jogo
pelo jogo com as armas que dispomos. Não vou levar toda a
época a lamentar-me dos valores que tenho. Sei da
realidade do clube. Quando me convidou, explicou-me tudo o
que se passava. Aceitei de livre vontade. Tenho de o
assumir e vou tentar dar no Vilanovense o que sei e posso.
* Públicado no Diário-Insular, em 21 Julho de 2003
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