Era
uma tarde de muita chuva, a meados da década de quarenta do
século passado. O "velhinho" Municipal de Angra do Heroísmo
tinha o piso de terra batida e transbordava de público.
Os artistas da bola eram do Lusitânia e militares ingleses
estacionados na Base das Lajes.
Entre os britânicos, destacava-se Lambert, defesa que havia
conquistado os galões de internacional antes da II Grande
Guerra. A sua missão, naquele jogo, era aparentemente bem mais
simples do que derrubar as tropas de Hitler - só tinha de ficar
de olho num extremo franzino, de nome Picanço.
O problema é que o tal Picanço era ágil como um rato e fazia
autênticas diabruras com o esférico. Para marcar o golo da
vitória, colocou, literalmente, a cabeça em água ao defensor
britânico.
A jogada foi simples e ao mesmo tempo manhosa: "dei uma patada
numa poça de água, Lambert ficou a esfregar os olhos e eu
marquei golo" - explica ao nosso jornal Cipriano Correia
Picanço, hoje com 81 anos de idade.
No jantar de confraternização, após o desafio, Lambert revelou o
habitual "fair-play" britânico, desfazendo-se em elogios sobre o
talento do "boy" Picanço.
As
caminhadas... e o cheiro
Vamos ao
início da história de Picanço, uma das maiores referências do
futebol açoriano. Nasceu a 11 de Janeiro de 1923, na freguesia
da Matriz, na cidade da Horta, ilha do Faial.
Cumpriu a sua formação no Sporting da Horta, onde sempre alinhou
até vir cumprir serviço militar para a ilha Terceira.
Assentou praça em 1944, no 17, em Angra do Heroísmo,
representando simultaneamente as cores do Lusitânia.
As funções de soldado eram cumpridas na freguesia das Fontinhas.
Em dia de jogo, Picanço fazia-se à estrada... a pé.
Dezoito quilómetros para baixo, igual distância, obviamente, no
regresso ao posto militar e, de permeio, correrias com e atrás
da bola durante hora e meia.
Todavia, Picanço não se queixa do sacrifício. Ele próprio fazia
questão de ir e voltar a pé, pois sempre havia a hipótese de
parar nos "vários postos de gasolina". Aqui o combustível tem
uma segunda interpretação - tratavam-se de copos de vinho de
cheiro capazes de restituir a vida a um morto.
"Nó" a Barrigana e o castigo
Picanço esteve cerca de três anos (entre 1945/8) em Angola,
ainda no âmbito do serviço militar.
Antes disso, o Porto deslocou-se a Angra do Heroísmo para
defrontar uma selecção da Terceira. Os portistas, também na
época, possuíam uma equipa de luxo, onde sobressaíam os
internacionais lusos Barrigana, Virgílio, Carvalho e Araújo.
O Porto levou a melhor (4-3), mas passou por dificuldades
inesperadas. O guardião Barrigana tentou enganar Picanço aquando
da marcação de uma grande penalidade, dando-lhe todo o lado
direito da baliza para o disparo. O avançado não hesitou e
rematou convictamente para o lado esquerdo, enquanto Barrigana
mergulhava para o lado oposto...
Depois da regressar da antiga colónia, Picanço foi à terra natal
visitar os pais. Aí jogou pelo Fayal Sport contra o clube que o
formou, o Sporting da Horta. A decisão saiu-lhe cara - queixa
para a Federação Portuguesa de Futebol e a pena de irradiação
para o futebolista foi célere.
O castigo era demasiado pesado e, depois de uma exposição ao
Governador Civil, o Praiense, a preparar a sua filiação,
conseguiu convencer Picanço a voltar a calçar as botas.
Para tal, teve de pagar 50 escudos ao Lusitânia para libertar o
seu ex-atleta. Logo no primeiro jogo entre as duas equipas, os
da Praia da Vitória levaram a melhor com dois golos de Picanço.
Não é necessário pensar muito para perceber a razão porque os
ouvidos dos dirigentes do Lusitânia ficaram a chiar face aos
protestos dos adeptos...
Habilidade a mais nos pés
Pelo Praiense manteve-se durante quatro temporadas.
Depois mudou-se para o Vilanovense, onde acabaria
a carreia de futebolista em 1971, com a respeitável idade de 48
anos.
Picanço experimentou praticamente todas as posições da equipa -
extremo-esquerdo, avançado-centro, médio, defesa e até
guarda-redes. Terminou com as luvas calçadas e 10 pontos num
sobrolho face ao pontapé de um adversário.
O futebol dos seus tempos recorda-lhe o sabor supremo da
juventude e o prazer de jogar com autênticos "mestres da bola" -
Ângelo Faria, Mário Polícia, Chaminé, Eusébio da Madeira e
Macoco, entre muitos outros que lhe dão vivacidade à memória.
Segue, via televisão, o futebol actual, mas a falta de sentido
de baliza tira-lhe do sério.
"É um toque para a frente, outro para trás. No meu tempo, em
três toques chegávamos à baliza adversária" - sentencia Picanço,
sem que não deixe de elogiar as qualidades de Rui Costa, "um
rapaz que trabalha para si e para os outros".
Considera, por isso, "totalmente diferente" o jogo nos dias que
correm. Quem observa jogadores com cortes de cabelo amaricados e
de brinquinho, jamais imagina botas com travessas e bolas que,
com a chuva, pareciam pesar toneladas e cujos "pontos", cosidos
à mão, deixavam vinco na testa.
Picanço é peremptório: "já não se joga com amor à camisola".
Os chorudos salários é que lhe dão para entrar no mundo da
fantasia. "Se tivesse hoje 18 ou 19 anos, bem poderia fazer
fortuna".
Era, porém, preciso conciliar talento com juízo. "A minha
habilidade ficou quase toda nos pés, restando pouco para a
cabeça" - diz no meio de um sorriso maroto.
Não se preocupe "tio" Picanço. Há muita boa gente que não tem
pinga de habilidade para distribuir pelo corpo...
* Públicado
no Jornal a União, em 29 Julho de 2004